Thursday, November 26, 2009

FERIDA

No espelho observou sua ferida, não admitia o fato da sua causa ser a auto desaprovação, não havia ainda um ato que tivesse abominado nas profundezas de seu íntimo!
bstinada.
Supôs quando a luz vermelha-alerta acendeu, mesmo assim prosseguiu.
Separou cuidadosamente os seus pertences para não errar, não alimentou expectativas, dessa vez planejou.
Ela e sua mania de perfeição.
Por mais que tentasse fugir da rotina, o caminho era o mesmo, praticamente as nuvens de pensamentos que a rondavam eram as mesmas.
Estava pra chover.
A tarde foi preenchida por conceitos de razão, intuição, experiência e conhecimento, logo cobertos pelo véu negro da noite que trazia um presente.
Havia paz, seu estado sereno se encaixava perfeitamente dentro daquele sorriso riscado na face, mas subitamente um vento muito forte, um redemoinho, um furacão ou qualquer outra força que possa tirar tudo do lugar veio, e tirou... Até mesmo sua própria ação, suas palavras, sua cor, suas respostas positivas e negativas!
Acabara de descobrir que odiava posturas imprevisíveis tanto quanto as previsíveis... As previsíveis, porque sempre encarou com tédio e as imprevisíveis porque lhe tiravam o chão e mais que isso, o cume... Por que não havia um equilíbrio?
As passadas eram velozes, ferozes, vorazes, envolta numa espécie de ódio, de dor, de milágrimas contidas, tudo que queria era o fim daquela tortura... Datilografia, furadeira, maçarico, secador, batedeira, liquidificador, trator, fusca, helicóptero, máquinas, o salto alto no asfalto, de cara no asfalto...
Lançado em seu rosto os planos inúteis, na noite.
Intimamente sensibilizada, não conseguia proferir sequer um dos milhões de adjetivos pejorativos que se dera em poucos minutos que mais pareciam horas. Não podia perder o ônibus!
Via-se dentro de um processo necessariamente doloroso. Perdia-se dentre os tentáculos do improvável, do imprevisto, misturava-se, dissolvia-se em tudo que lhe empurrava para baixo, em todos os espinhos que rasgavam sua carne e como num ato de crueldade derramavam seu sangue...
Enxergava as imagens em descompasso, indo vindo, vezenquando abrindo-se e envolvendo-a.
Passou para o outro lado com meia certeza e uma guerra que explodia... A espera infindável sentada com as pernas cruzadas a mão direita entre as pernas, se observava de longe, imaginando o quanto foi incabível consigo mesma.
O balanço do trem ia tirando a única coisa que restava no lugar, a lágrima...
Olhos orientais arregalaram-se para acreditar na cena do velório, um cadáver magro e pálido, com flores até os joelhos no vagão de um trem... Da janela apenas a escuridão externa, interna...
Havia deixado na estação certezas e conceitos que alimentara, desaprendeu também o que era só ser para aprender o que era ser só!
Uma vontade de deixar a janela em estilhaços lhe preencheu, esta refletia a própria imagem. Havia ainda uma longa viagem pra chegar em casa e em cada dedo uma chance de aprender a mesma lição que dolorosamente lhe era aplicada por longos anos...
Estarrecida, deixava aos poucos envolver-se pelo encanto da certeza de que a dor presente seria a responsável por sua maturidade.
Pensava nas sensações, eram as mesmas! Sufocante, de uma cor forte, subindo pelas entranhas, esmagando, pisando, cortando, ferindo, envolvendo, misturando, triturando, resumindo ao pó... Vento voltando e espalhando, via-se em toda parte, todo espelho, todo ser...
Ao passo que se deixava encantar pelos caminhos que levavam a conhecer-se por meio da dor, era dominada também por uma espécie de nojo e repugnância!
Doía porque não esperava, não podia, não havia o quê e nem queria, encantava-se pelo fato de não ser vão.
Tudo se tornava uma coisa só, misturada ao sangue das feridas, da morte que morreu em 5 minutos, de tudo que se perdeu e não tornou a ser, do sentimento modificado adensando-se, da potência de vida que é capaz e estava negando, da intuição que ignorou, das experiências que frente a ela se acharam inúteis, do conhecimento adquirido, da razão entendida na tarde de sábado.
As lágrimas que escorreram reluziam em orgulho, lavando a face triste e descorada.
Fraca, braços moles alcançaram seu destino, sem voz, sem vez adormeceu pra esquecer, esqueceu pra acordar, acordou pra chegar... Chegar onde? Pensava. Que conclusão? Existe conclusão?
Ah! Lembrou que o fato de todas as vezes ter se ferido na guerra nem sempre foi por lutar pelos seus ideais, mas por esquecer a si mesma.

Ana Mais do Que Nunca


Wednesday, November 25, 2009

INCONSEQUENTE

A tristeza era aparente, mendigava instruções de como lidar, como se comportar, como tratar.
Tinha medo de perder.
Mal sabia que nada tinha em mãos.
Havia se tornado a ironia de tudo que outrora criticou.
Tinha visto já essa situação e ao olhar nos olhos dela com certeza se lembrou de como aconteceu e de todas as críticas que havia inferido, mas não podia dizer, pra ela não, nada...
Foi ao banheiro, ao olhar-se no espelho sentiu vergonha de si mesmo, se arrependeu das palavras torpes, pensou: “na mesma medida que medir será medido”... Parou, lavou o rosto, mas tudo isso não o isentava da balança desequilibrada, do desespero que brotava na alma, do frio da insegurança...
Voltou para a mesa onde se encontravam os convidados, tentava certa concentração, um sorriso cínico, forçado, mais um pouco desceria uma lágrima grande e pesada e o grito arrebentaria a porta dos seus lábios, esquecendo todo ateísmo e pediria: Pelo amor de Deus me ame! Mas não, não chorou, nem gritou... Quase...
Mas todas as músicas, todas as vozes, todas as pessoas, as risadas, os gritinhos de felicidade raspavam contra a pele da alma, e no íntimo crescia uma profunda irritação, sentia que ali não era seu lugar, nem ali estavam seus amigos, chegou até a pensar que não era bem vindo... Mas permanecia, cedia a própria vontade, dizia ser amor, mas ainda não havia provado o verdadeiro amor, não havia reconhecido o que era amor... Jamais se negaria, jamais aceitaria estar num lugar onde não deveria e jamais olharia um ser humano com posse...
Mais tarde lembraria com nojo de si mesmo por perder o equilíbrio e mostrar tanta fragilidade e solidão, por de repente mudar de idéia e querer uma família e filhos bonitinhos correndo pela casa, uma vez por mês compras no supermercado e no fim de semana, praia. E, ainda não havendo maturidade suficiente, olharia para o outro (“sua posse”) também com repugnância!
A dureza, a arrogância foi se apagando ao passo que o doce veneno do escorpião misturava-se ao sangue, mas um detalhe que foi esquecido, nessa dança de acasalamento a fêmea freqüentemente come o macho no final.
Mas é muito ingênuo acreditar que isso pode ir pra frente da maneira que está!
Deve saber a verdade, alguém deve ter contado, ou na certa já leu em alguns dos milhares de livros que manuseia todos os dias... Ou aquela situação em que esteve presente do outro lado, e que ainda opinou julgando o errado da história não acrescentou nada...?
Ou mesmo sendo ou se considerando inconseqüente já ouviu a verdade...
Mostrou-se tolo, fraco sem armas no lugar outrora criticado por si próprio, não podia acreditar nas evidências isso lhe deixava atordoado, impaciente, rancava suspiros profundos e alavancava uma angustiam tão grande que andava, andava de um lado pra outro porque precisava preencher aquele vazio com algo...
Sempre achou o termo “correr atrás” forte demais, afirmava isso o tempo inteiro, como então ter reciprocidade? Percebia certa indiferença ao ser tratado, não via ninguém sair do lugar, dizer nada que queria ouvir e nem demonstrar ao menos um cisco de emoção...
Mergulhava numa profunda insatisfação...
Era quase uma loucura que lhe abraçava e fazia dizer coisas como “sem você não vivo” ou “eu vou me matar”...
Não tinha conhecimento da coisa rança, do enojamento do outro, das esperas previsíveis, das fugas...
Não tinha conhecimento dos olhos que enxergaram de fora com tristeza seu insucesso, seu desequilíbrio e frustração.
Não tinha conhecimento das palavras guardadas e talvez realmente nem pudesse suportar tamanha força...
Algumas almas satisfeitas,
Algumas já dormiam...
Na madrugada amena transbordava em demasiada gentileza que lhe era devolvida em golfadas cortantes...
Um adeus.
Era aparente que todo aquele redemoinho interno devastava cada vez mais a alma já dilacerada.

Ana Mais do Que Nunca

Thursday, November 19, 2009

CATARSE

A carnificina cala o canto do caipira

caído no chão calado continua chorando cinematograficamente

carrancas caçoam do caçula que calcula o caos do circo

conserva o coração cautelosamente

contanto que calce o carro e caia na cocaína

casto cético e cuzão cata qualquer coisa

quenga coroa e cearense, caju cajá e cachorra

cajaína e controle remoto

come chinchila na cama como se quisesse cigarro no cinema

canta cagando coquinhos cravejados de cravos

consegue chupar cebola com canudo

conseqüência?

careta na cara do capeta

chupeta da consciência cambaleia no cabaré caralho cintilante

de costas com o cu pra cima chama na chincha

para acasalar no canto como cachorros no cio

com a coisa escorrendo nas coxas

colchão coberto de coco chateia os charlatões

conhecidos da camaradagem contínua

com os cadáveres cinzentos carcomidos pelos camarões cenográficos

enquanto os coxos correm do casamento

cansados de crer no conceito clássico e claro da canalhice chantagista.

 
inSAna

B de BIROSCA

Burguesas  boemias  botequeiras  boqueteiras  babam  na  bilola  na  babilônia 
na  boa,  basta
 bosta  de  barbarie  brincam  e  beijam  a  bunda  dos  bobos  abastados
balizam  babaquices  bebendo  brahma  na  budega 
batem  as  belas  bananas  de  baianas  que  bolam  bem  bolado  nos  bolsos 
bandanas  brilhantes beiram  a  bizarrice  bandas  brasileiras
borbulham  nos  becos  abarrotados 
borra  a  banca  das  bibas abacaxizadas  nos  boulevares  do  Brás,  da Bresser,   da Boa Vista
como  brasas  na  brisa  brotam abobalhada  das  bocadas  bonitas
  são  bailarinas  buscando  belezas  e  bacanais 
brilham  nas  brechas  as  bolas  bombadas  dos  boys  de  bombacha
bombeiros  bulas  embicam  as  buzinas  à beira  do  abismo
abissal  dos  dos  bêbados
 balas e  bilas  embalam  os  berços  do  besteirol  bombástico
  broca  na  buça  berrante  abrobada  balbuciando  Bjork  embeleza  o  abajur  branco.

inSAna

Ao aR

Noite
misticismo
                           profundo
                                                                                                                      sentido
          saber                              brilhante                    
                                                                                 presença                              
            imponência
                                                         arrogante
                           seletivo
diferente
                                                           naturalmente
                                                                                                                                 riso
                                           objetivo
                                  caminho
                                                                                                                          possibilidade
mudança
planejada
                                     vontade
                                                              involuntária
                                                                                                         sentimento
                  artifício
                                                                                      expressão
contida
desejo?
                                                                                                    elástico
          dor
                                       passa
                                                                                                                                            tempo
                                                 perspectiva
fotografia
                                                                     detalhe
                                                                                                               escrita
                               memória           
                                                                                                                                                incrivel
                                                                                        motardela
forte.


inSAna

BOM DIA

Observei teu rosto por longas horas...

Você em mim disse: -Bom dia.

Eu em você respondi: -Bom dia...

Wednesday, November 18, 2009

PRECISO TE DIZER

Eu preciso te dizer desta vida que está pulsando em mim!
Deste sangue quente que corre em minhas veias,
Destas palavras que são total poder a quem sabe compreendê-las,

Mas preciso te dizer que as palavras me limitam, por muitas vezes eu querer dizer algo que elas não têm explicação ou definição como este sentimento agora...

Eu preciso te dizer que confio em te dizer o mínimo que desconfiaria dizer a alguém...
É porque você me compreende e meus olhos ficam marejados de lágrimas quando penso nisso!

O meu sono anda fraco e some todas as vezes que preciso pelo menos descansar um pouco,
Então não há jeito que não seja escrever pra te dizer...

Eu preciso te dizer ainda que depois que te conheci entendi um mundaréu de coisas em mim,
inclusive aprendi a calma de andar pelos corredores de um supermercado e esperar o tempo que for preciso até que minha mãe escolha qual marca de spaghetti vai levar...

Eu preciso te dizer que me sinto agradecida, feliz e plena
Porque todas as vezes que pensar em você ou lembrar você, será pra me enxergar de verdade...
Minha imagem refletida na tua, a tua na minha, não importa!
Só importa os olhos que me enxergaram assim...

Eu preciso te dizer que desenhei os móveis de casa e que por alguns dias o meu ritual foi deitar-me no sofá após apagar a luz e pensar: "estou na sala azul..."

Eu preciso te dizer que quando uma coisa é muito bonita a gente chora,
Assim como você ao ver aquele grande ato de AMOR,
O não ao abandono ou à vergonha mesmo com a velhice batendo à porta!

Eu preciso te dizer que te vi fugir de casa aos 4 anos de idade.
Que te vi na escadaria do prédio batendo figurinhas
E Que ainda te vi lavando o carro do vizinho pra juntar grana e comprar o CD do Metallica,

Que eu estava aquele dia que você deixou em estilhaços aquela janela quando atirou uma almofada contra a cabeça do seu primo...

Que eu não via a hora de te reencontrar! E aqui essa imagem viva!

Eu preciso te dizer ainda que presenciei a escrita das tuas poesias, dos teus versos, trechos, músicas...
Que estive enquanto você estudava,
Enquanto rebuscava nas tuas profundezas toda essa essência que exalas...

Eu preciso te dizer que escrevi isso rapidamente só porque preciso de dizer que essa inquietude é maior que eu!
E que também rebusco...
Que superficialidade é necessário pra que possamos ser entendidos pelos demais.

Eu preciso te dizer que fiz das tuas palavras as minhas: A mudança é a única constância!

 
Ana Mais do Que Nunca.

Friday, November 6, 2009

A CONDENAÇÃO

          Era bonito ver o céu lilás daquele jeito... Aquele reflexo vertical brilhante penetrava por entre as árvores os espaços que os galhos das arvores frondosas deixavam...
        As águas dos rios que cercavam eram calmas e cristalinas, sentir o solo sob os pés era algo inexplicável!
          E correr com os animais? E subir em árvores? E entranhar-se naquelas águas? E observar a matize das borboletas e flores?
         Um prazer!
         Uma plenitude!
         Tudo estava bem e seguro...
         Tudo muito claro e limpo; ah! A paz!
         Ela brincava nas margens do rio Pison quando de repente se deparou com sua imagem refletida.            
         Surpresa observou por algum tempo, tocou com carinho e se assustou, pois percebeu que seu reflexo oscilou; aguardou pacientemente até que sua imagem se estabilizasse novamente. Ansiosa tocou outra vez e outra vez ondulou, formou círculos concêntricos. Intrigada com o cenho franzido fez careta e até achou bonito seu sorriso refletido, mas subitamente foi invadida por um receio titânico: Além da imagem refletida o que mais oscilava?
          Até que ponto tudo que tinha era verdade?
          Por que ser privada dessa verdade?
          O que era a verdade?
          Olhou pra todo aquele paraíso com uma suspeita tão profunda que toda aquela beleza se transformou em espanto e melancolia: Um manto negro sobre sua alma...
          Transparecia em seu semblante a angústia, ressentida e extremamente insegura sentia sua integridade ameaçada e como dividir isso com seu companheiro?
          Era um aperto tão grande que fazia toda aquela claridade perder o brilho. Não, definitivamente não sabia que era medo e solidão, pois nunca havia sentido antes...
          Eram tantas as questões que se emaranhava toda. Confundia-se, perdia-se no meio delas...
          Recorreu à sua imagem refletida, não sabia mais se o que ouvia era a víbora-verdade ou mentira maquiada como as vermelhas maçãs de seu rosto!
          Algo espesso borbulhava por dentro tomando de conta de todos os seus órgãos e se externando, se externando...
          Era ódio?
          Amor?
          Indiferença?
          Nada podia classificar além do sentimento de frustração. Fora sabotada?
          Como vir da costela de um homem que veio do pó?
          O que fazia por ali?
          Observava a natureza, ouvindo pássaros e águas apenas?
          Pra onde iria?
          E o que era tudo isso que estava sentido?
          Ouvia sua consciência viperina sussurrar que havia algo errado... Havia algo mais...
          Condenada à liberdade dirigiu-se ao centro do paraíso e sentiu a proximidade de algo que só ela podia se permitir...
          O fruto assim sendo saboreado, o gosto tomando de conta das entranhas, do paladar da alma dilacerada... Foi além de simplesmente provar, tocou, se permitiu, sentiu, entrou em contato com aquela invasão bárbara!
          Podia enxergar e sentir em proporções maiores, o que lhe causava um espanto encantador; viu-se verdadeiramente pela primeira vez!
          Nua?
          Sim! Despida por não possuir nada que fosse construído por suas próprias mãos, pela sua própria capacidade, “tinha” apenas as belezas edénicas e limites impostos...
          Sentiu-se enojada ao lembrar e repetida vezes proferiu:
          - Mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; (...)
          Em nenhum momento se sentiu superior Àquele que a havia criado.
          Teria mesmo criado?
          Sentiu-se completa em essência, em seu direito de ser humano...
          Envenenada ainda ouviu um sussurro:
          - A razão é o que te difere dos outros animais...
          Sorriu um sorriso ora aliviado por se libertar de seus grilhões, ora angustiado por não saber como e o que fazer com aquilo...
          Deixar ali o seu antecessor? Jamais podia ser egoísta e hipócrita a tal ponto!
          Sabia agora que a pulsão que lhe dirigia as escolhas era de vida e pensando nele sentiu uma enorme ternura, amor.
          Essa mesma força a ajudaria a elucidar os acontecimentos, dependeria apenas da escolha de seu companheiro: aceitar ou não essa “verdade”...
          Sabia que se a escolha fosse negativa tudo pra sempre estaria perdido, vagaria longe do paraíso condenada e sozinha;
          Positiva? Tudo estaria ganho, afinal era uma só carne; estariam condenados longe do paraíso, mas acompanhados!

          Teria ele já visto sua imagem refletida oscilar?

          De maneira que a tarde caia, ela se aproximou dele e fez um convite:
          - Feche os olhos que quero levá-lo a um lugar...
          - Onde? Perguntou ele com voz calma.
          - Segredo! Disse cheia de poder.
          Era indubitável que sentiu algo diferente, ele não sabia dizer o que, apenas sentia que esse algo lhe isentava de sentimentos perversos...
          Ela fez um enorme esforço ficando na ponta dos pés, se estendendo o quanto podia para alcançar-lhe os olhos, cobriu com suas mãos pequenas e o guiou...
          Chegando às margens do rio ela deixou sua visão livre e disse:
          - Preciso que escute com muita cautela o que vou lhe dizer.
          Ele acenou a cabeça positivamente.
          -Hoje vi minha imagem refletida nessas mesmas águas que estão à sua frente... Quero que olhes a tua imagem!
          Ele sem hesitar aproximou-se do rio, agachou e foi esticando-se até conseguir ver seu rosto refletido, mesmo com a luz fraca observou enquanto ela complementou:
          - Observei, toquei e por mais de uma vez a vi oscilar, ondular, formar círculos concêntricos... Toca nessa tua imagem...
          Ele tocou, viu também que oscilou. Esperou, tocou novamente e se confirmou o que ouvira. E mergulhou num mundo muito seu, interno, intimo, apenas e somente seu; enquanto ouvia distante a voz dela:
          - Tu tens nas mãos a escolha que tive: descobrir que todos esses limites que nos foram impostos são totalmente relativos, eles oscilam; ou de ficar aqui com todos esses encantos, que a meu ver agora são enganosos, já é vinda a nossa condenação! Trouxe-te aqui por amor, por ser como eu – humano! Assim como também tenho certeza que se descobrisse alguma “verdade” não amargaria sozinho, eu cri que viesses comigo já que sou parte tua. Descobrindo eu esta verdade e guardando pra mim seria incompleta e inválida, visto que eu já não mais habitaria ao teu lado neste paraíso.
           Em algum momento ele vagamente lembrou-se da promessa de expulsão do paraíso, das dores que sua companheira poderia sentir ao proporcionar a luz a uma vida e da imposição do trabalho, mas isso era tão pequeno perto daquilo tudo que o inebriava que logo passou, assim como uma forma pensamento, subitamente uma voz no seu íntimo sussurrou:
          - Gostas do que vês? Assusta-se com o que vês?
          Ele achando ser sua companheira tentou responder, mas ouviu ainda:
          - Shiiih! Não! Responda só pra você. Existem mais coisas na terra e no céu do que se pode imaginar.
          Ele como se acordasse de um sonho dirigiu seu olhar desesperado pra sua companheira e disse rapidamente:
          - Onde é o centro?
          Ela lhe respondeu:
          No teu centro só tu podes chegar e saborear desse fruto. Sabes que isso pode trazer muitas perdas e infortúnios, mas o que vir após essa escolha será do próprio merecimento! E ainda serás diferente dos demais...
          Percebendo sua condenação irrevogável, angustiado se dirigiu até o centro e abocanhou voraz o fruto do conhecimento, da ciência, da certeza, da convicção. O que mudaria pra sempre sua vida...
          E juntos enxergaram-se pobres, nus, sem nada, exceto pelas mãos e a vida repletas de coragem, desejo de mudança. Não importava mais se o mundo foi criado em seis dias ou se ele havia emergido de uma nuvem densa de partículas do espaço...
          Essa foi escolha! Pulsão de vida e morte; claro e escuro. A gangorra mutável da vida composta pela percepção de que se hoje está em baixo, posteriormente estará em posição elevada, eis a única, imutável e mais poderosa regra: ação e reação.
          A sede pela busca, pelo saber, não mais existir por existir, mas ter um motivo!
          Libertos do medo da expulsão do paraíso que já nem era tão atrativo pelas suas belezas se revelarem tão ilusórias, pra que precisariam dele se podiam criar um? Se tinham nas mãos um grande poder e no interior outros objetivos?
          Ah! Se ela não tivesse percebido que sua imagem oscilava e mais que isso não tivesse despertado a curiosidade, a consciência viperina!
          Ficariam ali enquadrados no paraíso de belas formas e cores, eternamente entrando nas águas, sem perceberem que as oscilações não acontecem apenas na imagem refletida, mas em todo o universo!
          Expulsos do paraíso para sempre.
          Condenados à liberdade para sempre, ainda buscam sua verdade!

                                                                      Ana Mais do Que Nunca