A PONTE
Houve um tempo em que eu acreditava que confidências eram sementes guardadas em solo fértil.
Demorei a perceber que algumas pessoas não cultivam jardins. Colecionam ecos.
Carregam histórias de um lado para o outro, aproximam-se do fogo não para aquecer, mas para observar o que ainda pode arder.
Eu vi.
Vi versões mudarem conforme a conveniência.
Vi pontes erguidas não para unir pessoas, mas para sustentar o trânsito de segredos.
Vi relações alimentadas mais pelo controle do que pela confiança.
E, por um tempo, permaneci ali.
Não por ingenuidade, mas porque acreditava que lealdade era uma linguagem compartilhada.
Até compreender que algumas estruturas não precisam ser destruídas. Basta deixar de sustentá-las.
Então retirei aquilo que era meu: minha palavra, minha intimidade, minha confiança.
E a ponte caiu sozinha.
Porque alguns triângulos não se rompem em confronto. Desfazem-se quando um dos vértices escolhe partir.
Não precisei discutir.
Não precisei provar nada.
Não precisei impedir ninguém de permanecer.
Apenas me retirei.
Hoje, não me interessa quem fala, quem escuta, quem leva e quem traz.
Quem precisa provar importância ainda a procura nos outros.
Eu encontrei a minha em mim.
Enquanto alguns permanecem girando em círculos, eu sigo em frente.
Não perdi lugar algum.
Apenas saí de um lugar onde já não cabia.
E, do outro lado dos escombros, não encontrei tristeza.
Encontrei paz.
Ana + do Que Nunca
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