A CLAREIRA DA ALMA

Havia, nos tempos em que o mundo ainda era grande e misterioso, uma menina que deitava a cabeça no travesseiro e sentia a alma reverberar em calafrios e agitações na barriga. Uma gastura sem nome que trazia o infinito para dentro do quarto. Naquela época, o medo fazia buscar o aconchego do colo materno e paterno; a infância ainda não tinha vocabulário para traduzir o que já era abertura, sensibilidade e o ensaio de um chamado sagrado. Aquela quietude interrompida não era desalento: era a terra do próprio ser se movendo, preparando as raízes para o que viria.

Essa força sutil sempre esteve à espreita, tecendo sinais. Há muitos anos, em um templo de oração, minhas mãos deram forma a uma pintura mediúnica: o rosto de uma guardiã ancestral, bela e altiva. Por muito tempo, busquei em vão saber seu nome, que permanecia guardado pelo silêncio. Foi somente anos mais tarde, sob o manto dos dias de isolamento, que o mistério se desfez. Ao passar por uma profunda limpeza espiritual através da medicina sagrada, lavei o rosto e fitei o espelho. Quem me olhava de volta, refletida com absoluta nitidez, era ela. E sua voz ecoou firmemente: “Meu nome é Jupiara. Você pode fugir o quanto quiser, mas as forças da natureza sempre haverão de trazê-la de volta.”

Naquele instante, o ciclo se fechou em perfeita harmonia. Compreendi que as angústias da infância eram, na verdade, o primeiro clamor da terra me chamando de volta para casa, para o trabalho de cura que eu precisava realizar. A espiritualidade, em sua infinita delicadeza, sempre plantou pistas no meu caminho. Nas tantas vezes em que busquei amparo nas casas de fé, os mentores e mensageiros da floresta me fitavam com um olhar profundo, uma complacência silenciosa de quem guardava um segredo que eu mesma precisava despertar.

Até que, em um desses encontros recentes, a orientação foi direta e cortante como o sopro que limpa o horizonte: foi-me dito que as grandes ventanias nem sempre chegam para trazer a destruição ou a tempestade, mas sim para semear a ordem, restabelecer a justiça e abrir caminhos para o progresso. Aquelas palavras operaram como uma chave precisa. Dias depois, um antigo ciclo afetivo que eu vinha arrastando sem viço chegou ao fim, devolvendo a cada alma a sua própria verdade.

Por isso, ao caminhar mais uma vez pela floresta da minha própria alma, senti que cada passo conversava em segredo com as pegadas anteriores. O caminho, antes oculto pelo tempo, vai se abrindo em clareiras. Há uma memória sutil no corpo que reconhece a trilha e acolhe o que já foi vivido. Nesta noite, os ventos sopraram com a força dessa mesma tempestade sagrada, movendo o invisível. Chorei um choro antigo, um canal aberto por onde a água lavou o que eu instruía em segurar.

O silêncio do plano sutil sussurrou para que eu permanecesse de olhos fechados: “Olhe para dentro para poder verdadeiramente enxergar.” E ali, na escuridão mansa do meu próprio peito, fui conduzida a encarar os pontos que eu tanto evitava. Olhei. Não com o pavor da infância, mas com o amparo da mulher que se reconhece inteira. Ao abrir os olhos para o mundo, a fogueira física parecia ter cedido espaço a um bailado de mãos na penumbra, e uma certeza ecoou: “Este trabalho é tecido por muitas mãos.” Senti-me, finalmente, em absoluto amparo.

Diante do questionamento sobre o motivo de a floresta ter clareado tanto, a sabedoria do guardião ecoou como um bálsamo: “A clareza só se manifesta quando estamos prontos, preparados e quando nos permitimos receber.” Dentro de mim, a mente humana ainda tentou enumerar as tantas colheitas que faltam, os degraus que ainda preciso construir. Mas a voz da intuição pediu mansidão. Compreendi que a evolução se faz em silêncio, um degrau por vez, respeitando o tempo de maturação de cada semente. A água lavou o passado, o ar levou o excesso, ladeado pelo solo firme que sustentou meus pés instáveis, e o fogo veio apenas para iluminar.

Hoje olho para trás e vejo que até as dores, desde as angústias daquela menina no quarto escuro até as despedidas da adulta, foram formas de cuidado. Vivenciar reencontros ressignificados, receber este presente tão simbólico e sentir o coração em paz me fez entender que nada acontece fora do tempo divino. Às vésperas de um novo ano de vida, sigo com menos certezas, mas com muito mais confiança. Não há solidão quando se descobre o amparo que nos guia desde o início. A luz finalmente clareou exatamente onde a minha floresta mais precisava enxergar.

Ana Mais do Que Nunca ☆

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