A RESSACA DA PSEUDO INTENSIDADE



Existe um perigo silencioso na busca por aquilo que brilha rápido demais. Na arquitetura dos afetos contemporâneos, fomos treinados a confundir o barulho do entusiasmo com a firmeza da presença, a trocar o espetáculo da promessa pela entrega real. Apaixonamo-nos, muitas vezes, não pela pessoa que está diante de nós, mas pelo ruído que a própria expectativa faz ao ser alimentada. É assim que se instala a ressaca do vício da intensidade: o colapso de quem preferiu a vertigem do momento ao estofo da permanência.

A intensidade sem substância é como o fogo de palha: queima os olhos, ilumina a cena por alguns segundos com uma promessa de aquecimento, mas não deixa brasas. Quando a fumaça se dissipa, o que resta é o choque da lucidez com a fantasia, o despertar da consciência ao perceber que o que parecia oceano não passava de uma poça rasa adornada por boas palavras.

Recuperar o eixo exige sobriedade. Não se trata de alimentar a raiva ou o ressentimento, pois a raiva ainda concede ao outro o palco da nossa atenção. Trata-se, em verdade, de um movimento de recolhimento e discernimento. O silêncio e o recuo não são atos de vingança, mas ritos de preservação da paz. É erguer uma fronteira elegante onde a urgência alheia perde o acesso ao nosso tempo.

Curar-se da ilusão é reaprender a respeitar a própria escala de valores. A maturidade não se encanta mais com faíscas passageiras, porque já conhece a nobreza do fogo que permanece. Quando a régua volta ao lugar correto, o recolhimento deixa de ser punição e passa a ser refúgio.

O ciclo se encerra na serenidade de quem não deve explicações e nem faz cobranças. As mensagens não respondidas viram poeira no ar; o que vier de fora, se vier, só atravessa a porta se trouxer o peso leve do instante, sem promessas e sem cobranças. A espera por profundidade onde só existe superfície é uma ilusão na qual não se pisa duas vezes.

Ana + do Q Nunca.

Comentários

Postagens mais visitadas